Quando o acesso à rua depende da boa vontade dos outros, Nos últimos tempos tenho vivido situações que me obrigam a parar, respirar fundo e lembrar-me de que ainda há muito caminho a percorrer quando falamos de acessibilidade e respeito.

Quando o acesso à rua depende da boa vontade dos outros

Quando o acesso à rua depende da boa vontade dos outros

Nos últimos tempos tenho vivido situações que me obrigam a parar, respirar fundo e lembrar-me de que ainda há muito caminho a percorrer quando falamos de acessibilidade e respeito. Este texto é um desabafo, mas também um registo — porque aquilo que vivi não é um episódio isolado. É um espelho de uma realidade que muitos preferem ignorar.

Chamo-me Lúcia, vivo em Valadares e ando de cadeira de rodas elétrica há mais de vinte anos. Sou ativa, trabalho, reúno com clientes, escrevo, participo na comunidade. Mas demasiadas vezes vejo a minha autonomia bloqueada — literalmente — por carros estacionados onde não deviam estar.

No acesso à estação de comboios de Valadares, no sentido Porto–Aveiro, existe uma passagem essencial para quem, como eu, precisa de entrar e sair da estação. E é precisamente aí que, repetidamente, encontro carros a impedir por completo a minha passagem. Há uns dias voltei a viver isso: fiquei duas horas à espera que alguém resolvesse a situação.

Entre telefonemas para a PSP, para a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e para a Polícia Municipal, vivi mais um capítulo do eterno jogo do empurra. Só quando referi que tinha reuniões de trabalho é que aceitaram enviar alguém.

Até lá, a sensação era clara: que eu devia esperar, calar e aceitar. Como se a minha vida pudesse ficar suspensa porque alguém decidiu estacionar onde não devia.

Em pleno 2026, continuo a sentir que, para muitos, pessoas como eu são tratadas como um incómodo. Como se tivéssemos de pedir licença para andar na rua. Como se a nossa mobilidade fosse um favor e não um direito. E isto dói — porque trabalho, contribuo, participo, lidero. Fui presidente de uma associação de doentes durante seis anos, escrevo livros infantis, sou ativa. Mas basta um carro mal estacionado para me lembrar que, para parte da sociedade, ainda somos invisíveis.

E não foi caso único. Há pouco mais de um mês vivi exatamente a mesma situação: um carro bloqueou a passagem enquanto o condutor estava tranquilamente no café, e eu fiquei ao frio durante uma hora. Liguei para a Câmara, que disse que era com a PSP. Liguei para a PSP, que disse que era com a Câmara. Um ciclo que se repete, desgasta e revolta.

Pedi várias vezes que fossem colocados pinos e sinalização adequada para impedir estes abusos. Pedi porque não sou só eu: cadeiras de rodas, bicicletas, carrinhos de bebé — todos precisam daquele acesso livre. Antes existia sinalização, mas foi destruída. O agente da polícia chegou a procurar o sinal no meio do mato para justificar o reboque. Surreal.

Mas hoje posso finalmente dizer algo que me devolve esperança: após insistência, persistência e muita resiliência, a Junta de Freguesia de Valadares atendeu ao meu pedido e colocou mecos no local, impedindo que os carros voltem a ocupar indevidamente aquele espaço. Uma pequena vitória no mapa da cidade, mas uma enorme vitória no mapa da dignidade.

Escrevo isto porque sei que não sou a única. Muitos deixam de sair de casa por causa destas barreiras. Muitos desistem antes de tentar. E isso não pode continuar. A acessibilidade não é um luxo — é um direito básico. Um direito que não pode depender da boa vontade dos outros.

Que este episódio sirva para lembrar que cada gesto conta. Que cada espaço livre pode mudar o dia de alguém. E que, quando a sociedade falha, a nossa voz não pode falhar também.

Acessibilidades nas Praias do Norte de Portugal

Acessibilidades nas Praias do Norte de Portugal

Acessibilidades nas Praias do Norte de Portugal

Viver numa cadeira de rodas — no meu caso, numa cadeira elétrica — é viver com uma consciência profunda do espaço, dos acessos e das barreiras que muitos nem imaginam. E essa consciência torna-se ainda mais evidente quando chega o verão e eu, como tantas outras pessoas com mobilidade condicionada, desejo simplesmente usufruir de algo tão básico e tão humano como ir à praia e sentir o mar.

Em Portugal, existe o programa “Praia Acessível – Praia para Todos!”, criado para garantir que as zonas balneares oferecem condições dignas de acesso, circulação e segurança para pessoas com mobilidade reduzida. No papel, o Norte do país até apresenta um número significativo de praias classificadas como acessíveis — 53 praias na Região Hidrográfica do Norte, entre costeiras e interiores . Muitas delas dispõem de cadeiras anfíbias e, em alguns casos, de serviço de apoio ao banho, como acontece em Vila Praia de Âncora, Foz do Minho, Cabedelo, Apúlia, Póvoa de Varzim, Porto (Homem do Leme, Carneiro), Vila Nova de Gaia (Salgueiros, Aguda, Miramar, Senhor da Pedra) e Espinho, entre outras .

Mas a verdade — a minha verdade — é que ter o galardão não significa ter acessibilidade real.

Para mim, e para tantas pessoas que se deslocam em cadeira de rodas elétrica, o desafio começa muito antes de chegar ao areal. Para uma praia ser verdadeiramente acessível, não basta ter um passadiço na areia. É preciso:
• Passeios acessíveis, sem degraus, buracos ou inclinações impossíveis.
• WC adaptados, funcionais e próximos do areal.
• Estacionamento reservado com percurso acessível até à entrada da praia.
• Apoio especializado de nadadores-salvadores ou bombeiros, capazes de nos ajudar a transferir para a cadeira anfíbia e a entrar na água com segurança.
• Zonas de sombra e descanso acessíveis, com piso firme.
• Horários alargados para o uso da cadeira anfíbia e do apoio ao banho — algo que, infelizmente, continua a ser extremamente limitado.

E é aqui que reside uma das maiores frustrações: a escassez de horários.

Muitas praias só disponibilizam apoio ao banho durante poucas horas por dia, e quase sempre em horários que não se ajustam às necessidades de quem depende de terceiros, de transportes adaptados ou de condições específicas de saúde. É como se a acessibilidade tivesse hora marcada — e nós tivéssemos de adaptar a nossa vida a essa janela mínima.

Além disso, para quem usa cadeira de rodas elétrica, como eu, a situação complica-se ainda mais. A minha cadeira não pode tocar na areia. Não posso aproximar-me da água. Dependo totalmente do apoio humano e da existência de equipamentos adequados. E quando esses apoios são insuficientes, limitados ou inexistentes, a praia deixa de ser um espaço de liberdade e passa a ser um espaço de exclusão.

Apesar de tudo, reconheço que o Norte tem feito progressos. Há praias com excelentes práticas, como o Porto (Homem do Leme e Carneiro), Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Matosinhos e Vila Nova de Gaia, onde existe não só cadeira anfíbia, mas também serviço de apoio ao banho, algo essencial para quem não se pode transferir sozinho . Mas mesmo nestes locais, a experiência depende sempre de fatores como o número de nadadores-salvadores disponíveis, a maré, o vento, o horário e a afluência.

Comparação geográfica e realidade atual, segundo os dados oficiais de 2024, Portugal tem 244 zonas balneares acessíveis, das quais 53 estão no Norte .

O Norte é, portanto, uma das regiões com maior número de praias acessíveis — mas isso não significa que seja a região com melhores condições reais.

A nível nacional, as praias do Centro e Algarve tendem a apresentar melhores infraestruturas complementares, como:
• percursos contínuos até zonas de sombra,
• duches acessíveis,
• restaurantes adaptados,
• e, sobretudo, equipas mais estáveis de apoio ao banho.

No Norte, apesar da quantidade, a qualidade varia muito de praia para praia. Há locais exemplares e outros onde o galardão existe, mas a experiência prática continua limitada.

Reflexão pessoal

No O Mundo da Lúcia, falo muitas vezes sobre autonomia, dignidade e inclusão. E é impossível falar de inclusão sem falar de acessibilidade — porque acessibilidade não é um luxo, é um direito.

Eu, Lúcia Pinto, vivo esta realidade na pele. Se quero ir à praia, tenho de planear tudo ao detalhe: o transporte, o horário do apoio ao banho, a disponibilidade da cadeira anfíbia, a maré, o vento, o número de nadadores-salvadores, o estado dos passadiços, a existência de WC adaptado… E mesmo assim, muitas vezes, chego lá e não consigo entrar na água.

É duro. É frustrante. E é profundamente injusto.
Acredito que Portugal tem feito progressos — mas falta visão, falta continuidade, falta compromisso. A acessibilidade não pode depender da boa vontade de uma equipa de verão. Tem de ser uma política pública séria, consistente e fiscalizada.

No O Mundo da Lúcia, continuo a falar sobre isto porque acredito que a mudança começa na consciência. E porque sei que, quando uma praia se torna verdadeiramente acessível, não beneficia apenas pessoas como eu — beneficia famílias inteiras, idosos, pessoas temporariamente lesionadas, crianças pequenas, todos.

A acessibilidade é para todos. E o mar também devia ser.

Fontes utilizadas

• Agência Portuguesa do Ambiente — Programa Praia Acessível
• Lista oficial de praias acessíveis 2024 (APA)
• Fórum Municipal das Pessoas com Deficiência — Lista de praias acessíveis no Norte (2023)
• Turismo de Portugal — Zonas balneares acessíveis 2024
• Visit Portugal — Informação geral sobre praias acessíveis