Habitação e Direitos: O que muda para quem vive com incapacidade igual ou superior a 80%
Em Portugal, as pessoas com deficiência com incapacidade igual ou superior a 80% continuam a enfrentar desafios profundos no acesso à habitação. Mas existem direitos, apoios e medidas que procuram garantir mais autonomia, dignidade e segurança — seja na compra de casa, no arrendamento ou na adaptação do espaço onde vivem.
No O Mundo da Lúcia, acreditamos que informação é também uma forma de cuidado. Por isso, reunimos os principais direitos e dados nacionais que ajudam a compreender o presente e a reivindicar o que ainda falta conquistar.
Apoios na compra de casa: quando o lar precisa de ser acessível
As pessoas com incapacidade igual ou superior a 60% — incluindo naturalmente quem tem ≥80% — têm acesso ao Crédito Habitação Bonificado, um apoio que reduz taxas de juro e facilita:
• Compra de habitação própria e permanente
• Construção de casa
• Obras de adaptação e acessibilidade
• Aquisição de terreno ou garagem
Este regime existe para que a casa seja um espaço possível, seguro e ajustado às necessidades reais de cada pessoa.
Benefícios fiscais: aliviar o peso financeiro
Entre os apoios fiscais mais relevantes encontram se:
• Isenção de IMI para imóveis com Valor Patrimonial Tributário até 66 500 €, mediante incapacidade ≥60%
• Benefícios no IRS previstos no Estatuto dos Benefícios Fiscais
• Possibilidade de deduções adicionais associadas à condição de deficiência
São medidas que procuram equilibrar desigualdades e permitir que a habitação não seja um fardo impossível.
Arrendamento: viver com dignidade, mesmo sem casa própria
Embora não exista um subsídio de renda específico para incapacidade ≥80%, há apoios que podem ser utilizados:
• Crédito bonificado para obras de adaptação em casas arrendadas
• Acesso a programas sociais de habitação
• Apoios complementares previstos no Guia Prático dos Direitos das Pessoas com Deficiência
Porque a autonomia não depende apenas de paredes — depende de condições reais para viver com conforto e segurança.
O retrato nacional: o que dizem os números
Os dados mais recentes mostram avanços, mas também revelam desigualdades que persistem:
• Em 2023, o risco de pobreza entre agregados com pessoas com deficiência foi 10,7 pontos percentual superior ao dos restantes agregados.
• Em 2022, Portugal investiu 1,58% do PIB na proteção social das pessoas com deficiência — abaixo da média europeia (1,87%).
• A Prestação Social para a Inclusão chegou a 154 421 beneficiários em 2023, um aumento de 623% desde 2017.
• A taxa de emprego das pessoas com deficiência atingiu 65% em 2022, igualando pela primeira vez homens e mulheres.
Estes números mostram que, apesar dos direitos conquistados, o caminho para uma habitação verdadeiramente acessível e justa ainda está a ser construído.
Um olhar final
A mobilidade não define uma vida — mas as políticas públicas podem definir oportunidades. Informar é um ato de cuidado, e conhecer estes direitos é um passo essencial para que cada pessoa possa viver com mais autonomia, segurança e dignidade.
No O Mundo da Lúcia, acreditamos que cada corpo merece um lugar onde possa descansar, criar, existir e florescer.
Fontes utilizadas
• Observatório da Deficiência e Direitos Humanos (ODDH) — Relatório Pessoas com Deficiência em Portugal – Indicadores de Direitos Humanos 2024
• Observatório da Deficiência e Direitos Humanos — Indicadores de Direitos Humanos 2025
• AccessibleEU — Pessoas com Deficiência em Portugal. Indicadores de Direitos Humanos 2024
• Caixa Geral de Depósitos — Benefícios para pessoas com deficiência: compra e arrendamento (2025)
• Portal gov.pt — Direitos das Pessoas com Deficiência (INR)
• Serviço Público — Apoios para Pessoas com Deficiência
• Associação Mutualista Montepio — Pessoas com deficiência: conheça 13 apoios (2025)